sábado, 14 de julho de 2007 | By: Mandi

Dona Vera

Quando eu era criança e ameaçava chorar, minha avó olhava para mim e dizia:
- Menina!
Só o olhar de dona Vera era o suficiente para eu engolir o choro e, junto com ele, tudo o que eu estava sentindo naquele momento. Talvez possa parecer crueldade para alguns, mas eu entendo bem a minha avó. Ela é uma das pessoas mais orgulhosas que eu conheço. Porque ela precisava ser.
Dona Vera é a terceira filha - e única mulher - entre os oito filhos de Pedro e Said Abib. Primeira geração brasileira de uma família de libaneses. Meu bisavô era comerciante e perdeu todos os seus bens durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, minha avó estudou por pouco tempo em um colégio de freiras e eu acredito que, se ela tivesse tido a oportunidade, teria seguido a carreira religiosa.
Na adolescência, teve de enfrentar a primeira grande mudança de sua vida, a de cidade. Aqui, aos 16 anos, foi trabalhar em uma fábrica. Casou-se com meu avô aos 25 anos. Teve quatro filhas, todas em casa, pelas mãos de parteiras. Mesmo aos trancos e barrancos, manteve-se ao lado do meu avô, provavelmente uma das pessoas mais difíceis que já circulou pelo Planeta Terra. Ela é leão. Ele era capricórnio. Até hoje não entendo como viveram 50 anos juntos.
Minha avó perdeu a visão por conta de um descolamento de retina. Primeiro no olho esquerdo, depois no direito. Hoje, só enxerga sombras.
Com a idade, a audição também começou a falhar. Usa aparelho nos dois ouvidos, mas esforça-se para entender o que acontece a sua volta. E consegue. É mais bem informada do que muitos jornalistas que eu conheço. Outro dia, descobriu o telefone da casa de Salomão Schwartzmann - que até há algumas semanas era o apresentador do Diário da Manhã, na Rádio Cultura - para perguntar por que o programa foi tirado do ar, sem aviso prévio.
Além de todos os noticiários possíveis, ela também "lê" a Veja. Graças à Fundação Dorina Nowill, que semanalmente envia a versão sonora da revista.
Eu estava pronta para escrever um texto completamente diferente, chamado "Sobre lágrimas...". E, de repente, percebi uma outra coisa tomando forma. Fui lá, e mudei o título. Agora, é "Dona Vera".
Minha avó sempre teve orgulho de seu nome significar "verdade". E, verdade seja dita, dona Vera é tudo nessa vida. Provavelmente das personalidades mais complexas e interessantes que eu já tive a honra de conhecer.
E espero que Lorenzo, seu primeiro bisneto, tenha essa oportunidade, também...
Dona Vera completa 82 anos no próximo domingo.

3 observações:

Anônimo disse...

Amandinha, o que seria de nós sem a dona Vera, e todas as avós do mundo. Elas nos empurram para frente, com tanta sabedoria, que dá medo. Penso muito freqüentemente que, pela experiência de vida nossa, tão diferente da delas, muito do que elas viveram vai se perder para todo o sempre. Como a postura sapiente diante de tudo o que nos acontece a cada janeiro que dobra na folhinha. E, no fundo, elas são como a gente, la no fundo. Curta muito a dona Vera porque essa figura, a avó, é única na vida da gente.
bj. Li

jujuba disse...

Dona Vera faz parte do seleto grupo de seres humanos que, além de contarem com as experiências da vida, contam também com uma força enorme e servem de exemplo pra qualquer um.
beijo da gorda

Serjones disse...

Parabéns à dona Vera! Vê se não se entope de guloseimas no niver, senão ela te dá outra bronca!
- Menina!
Vou passar o link do "Mundo Canibal" pra ela se ligar na historinha da "Havaiana de Pau".