sábado, 28 de março de 2009 | By: Mandi

Demolição Ortográfica

Estudiosos de idiomas costumam dizer que a Língua Portuguesa é uma das mais difíceis de se aprender, seja você morador de um País que fala português ou não. Aos 30 anos, confesso que ainda estou tentando aprender um pouco mais sobre nossas regras para se falar e escrever bem. E quando eu começo a pensar que estou no caminho certo... pronto, lá vem a tal da reforma ortográfica para atrapalhar tudo.

Reforma? Que nada, demolição, mesmo. Colocou abaixo anos e anos de estudos e leitura. Onde já se viu ideia sem acento? De repente, a palavra ficou próxima demais do inglês. E o hífen? Daqui a pouco vai dar briga. O trema não era grande coisa, mais tem gente que diz sentir falta daquele "charminho". E o pára que virou para. Para tudo. Ou para tudo? Alguém consegue ver a diferença?

Semana passada a Academia Brasileira de Letras lançou o novo vocabulário oficial brasileiro. Diferentemente de um dicionário, o léxico reúne apenas as palavras e como elas devem ser grafadas, e não seus significados. São 349.737 vocábulos distribuídos em 887 páginas, além de 1,5 mil estrangeirismos. Tudo isso pela módica quantia de R$ 120,00. E o hífen, de novo? Como um simples tracinho poderia causar tantos problemas?

Os próprios organizadores do "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" revelaram que o tal do hífen tirou o sono de muitos. E agora? Agora é voltar a estudar, o que é bom, mas continuar sem entender a razão pela qual estas mudanças foram feitas, apesar das inúmeras justificativas.

A principal delas seria a de facilitar a compreensão entre os países que adotam o português como idioma. Como se as expressões locais, gírias e o sotaque não fossem o suficiente para derrubar essa ideia, sem acento. Basta colocar pessoas de diferentes estados brasileiros em uma sala e esperar para ver. Logo começam a aparecer palavras que são características de uma região.

Apesar de termos até 2012 para concluirmos a demolição, digo, transição ortográfica, ou seja, reaprendermos nosso próprio idioma, eu já tenho buscado algumas alternativas além de sites e dicionários. Minha mais nova obsessão é comprar um bom livro de gramática, até como forma de relembrar algumas lições que há muito já não fazem parte do meu dia a dia (que perdeu o hífen). Infelizmente, a única grande livraria da Cidade (ou seria somente a única livraria da Cidade?) tem poucas opções, zero se levarmos em conta o autor que me foi recomendado.

De repente, entretanto, me bateu uma culpa. Será que eu estou sendo crítica demais com o pobre do acordo ortográfico? Pode até ser. Mas eu não sou a única. Em Portugal, o jornal "Correio da Manhã", o mais vendido daquele país, encomendou uma pesquisa para saber o que os portugueses estavam achando da reforma: 57,3% são contra, enquanto apenas 30,1% são a favor. Outros 11% não são nem a favor nem contra e 1,6% não têm opinião a respeito.

A pesquisa ainda detectou uma camada rebelde: 66,3% declaram que não vão adotar as novas regras na escrita. A maior porcentagem entre os "resistentes" está na faixa etária de 18 a 29 anos: 65% não querem mudar a forma de escrever. Até abaixo-assinado via internet já estão fazendo.

E, quem diria, no final das contas, que um acordo poderia gerar tanto desacordo. Antônimo, antítese, paradoxo... No final das contas, a demolição é necessária e pode até ser útil ao abrir o espaço para o novo, quer a gente goste ou não.
terça-feira, 24 de março de 2009 | By: Mandi

O medo

Ultimamente tenho refletido muito sobre o medo.
Ainda não tenho muitas conclusões, mas tenho algumas ideias que gostaria de compartilhar.
Pessoas apegadas à rotina não sabem dizer não.
Por quê?
Porque elas acreditam que, se aceitarem tudo o que lhes é imposto, conseguem evitar ao máximo os distúrbios que lhe seriam causados caso se rebelassem contra alguém ou uma situação. Por outro lado, dizer sim também pode ser uma tarefa complicada. Porque, muitas vezes o sim também traz o novo, abre uma porta, uma possibilidade.
Será que deveríamos ficar com o talvez? Talvez. Pelo menos até termos uma opinião formada sobre o assunto. Sem eliminá-lo por completo, sem nos jogarmos nele por completo.
Mas o novo continua a existir.
E o medo do novo é petrificante.
O novo nos força a mudar. Nos força a buscar alternativas, a encarar nossos medos.
Nos força a lutar.
E nem sempre lutar significa vencer. Nós até podemos perder. As chances são sempre as mesmas, matematicamente falando. Afinal, são duas possibilidades, vencer ou perder. Meio a meio, 50% para cada lado.
E o medo? O medo só é útil quando não causa paralisia.
Depois que o medo toma conta do seu corpo a tal ponto que invade sua mente, te priva de qualquer razão. E quando chega ao coração, já era. Você deixa de sentir para simplesmente existir. O fato de existir não serve para nada se sua existência for irrelevante.
Medo maior, no final de tudo, de num mundo de signos e significados, nos tornarmos insignificantes.