segunda-feira, 10 de novembro de 2008 | By: Mandi

A importância de se dizer não

Nem sempre as pessoas entendem quando dizemos não.
Nem sempre entendemos quando as pessoas nos dizem não.
Ainda assim, saber dizer e saber ouvir um “não” é cada vez mais necessário. Da mesma maneira que a palavra "não" ajuda a criar limites, ela pode nos inspirar a rompê-los. Desde que se haja um mínimo de discernimento para se avaliar quando é possível e necessário fazê-lo.
A começar pelas crianças.
Hoje em dia é cada vez mais comum a impressão de que as crianças amadurecem mais rápido. O acesso à informação, a falta de critério na exibição de determinados desenhos que estimulam a violência e a própria permissividade por parte dos adultos responsáveis geram resultados desastrosos. Afinal, não importa o quão madura uma criança pareça, ela ainda é uma criança. Então, por mais emburrada que ela fique, por mais escândalo que ela faça, dizer não é preciso.
Há alguns anos, participei de um programa de intercâmbio chamado “au pair” e passei um ano morando nos Estados Unidos, vivendo com uma família, cuidando das crianças da casa de dia e estudando à noite. Eram três meninos. O mais velho era extremamente inteligente e maduro para os seus quatro para cinco anos, ao contrário do irmão do meio, de três para quatro anos. O caçula era um bebê.
Na tentativa de criar os filhos de uma maneira "alternativa", os pais não conseguiam perceber o óbvio: o limite era artigo em falta naquela casa. As crianças não eram obrigadas a tomar banho diariamente (mesmo que a casa contasse com um excelente sistema de aquecimento, quebrando o argumento do frio que a mãe insistia em usar), escovavam os dentes quando queriam e não precisavam pedir por favor ou dizer obrigado. Aliás, isso causou uma grande confusão entre o pai e eu.
Como eu só atendia os meninos quando eles pediam por favor, e insistia no obrigado ao final, certa vez fui surpreendida com o seguinte comentário paterno: "Eu não quero que você ensine meus filhos a dizerem por favor e obrigado. Eu estou criando meus filhos para mandarem, não para pedirem". A palavra criar, aí, é muito subjetiva, sendo que ele passava menos de quatro horas semanais com os filhos – fins de semana inclusos.
E continuei usando a palavra não para impor limites – até porque quando eu não fazia isso era alvo de socos, beliscões e pontapés -, e insistindo no uso do por favor e do obrigado. Se o pai daqueles meninos estava convencido de que, no futuro, seria colocado em um asilo e raramente receberia a visita dos filhos, eu preferia insistir na tentativa de torná-los adultos mais responsáveis.
Neste período, passei a compreender de maneira única todos os “nãos” que recebi dos adultos de minha família ao longo dos anos, desde a infância, passando pela adolescência, até chegar à maturidade. Todas as vezes que quis brincar sozinha na rua, ir a uma excursão ou sair sozinha com minhas amigas.
E hoje em dia, acompanhando os noticiários, me pergunto se não faltou um pouco de não na vida de algumas pessoas. Não, você não pode namorar um homem de 19 anos quando você só tem 12. Não, você não pode ter um Orkut, MSN ou voltar sozinha da escola aos nove anos. Não, você não pode entrar no mar se você não sabe nadar. Infelizmente, todos estes “nãos” nunca chegaram. Ou chegaram tarde demais.

4 observações:

Fernanda Fernandes Fontes disse...

Que absurdo os dizeres do pai das crianças que você cuidou. Estou perplexa, quanta ignorância! É por isto que muitas viram adultos problemáticos...nem sempre mandamos na vida!
PArabéns pela reflexão. Que possamos crescer cada dia mais com os "nãos" que recebemos e damos...

Abraços!

Marcinha disse...

É Amandita.... vc me fez pensar... é preciso saber dizer não... quantas vezes eu mesma... já adulta.. não consegui dizer... ou muitas vezes disse não.. mas sem convicção... saber dizer não com convicção pode evitar um monte de coisas desastrosas..... boa lição essa... estou aprendendo a dizer não... e respeitando quando dizem não pra mim....

beijinhos anjinho...

Pestaninha disse...

Nossa!!! Pior que ler a tamanha ignorâncias desses PARENTS, foi ler: ALGUNS ANOS ATRÁS PARTICIPEI DE UM PROGRAMA DE AU PAIR. Essa me deixou de queixo caído. Como é difícil aceitar que a idade tá chegando e que o tempo passa rápido demais. PQP!!!! Parece que foi ontem que falávamos sobre isso lá na Barra do Una...
Afe!

zapner disse...

olá mandi, queria apenas teçer uns breves comentários, não a este texto em particular, mas ao blogge em geral. Entrei aqui por acaso, numa simples pesquisa no google, começei a ler um texto, depois outro, e notei, que embora homem (heterosexual rsrs) identifico-me muito com as tuas pequenas reflexoes sobre a vida e a relação entre homens e mulheres em geral, além do facto de escreveres muito bem também. Talvez por sermos da mesma geração embora vivendo em continentes diferentes temos gostos similares, memórias e algumas vivencias parecidas. Bem, mas naõ me vou alongar mais, ficam aqui apenas os meus parabens pelo blogg, continua...........

P.S. se tiveres tempo ou quizeres responder aqui fica o meu msn juliomadomingos@hotmail.com, se preferires mandar mail... jmangelo79@gamail.com beijos e felicidades quer na vida pessoal quer na tua carreira Júlio